quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Hoje dançamos na cozinha de manhã

Hoje dançamos na cozinha de manhã
apesar da ressaca dos recentes acontecimentos
Nos últimos tempos há algo, sempre algo, acontecendo
e nenhum dia parece propício para dançar mas
que bom que nos conhecemos em tempos mais delicados
e era permitida certa felicidade ingênua que agora parece tão despropositada
naquele tempo acho que também aconteciam coisas intragáveis
e só não tínhamos ainda a densidade de digeri-las
e hoje nos culpamos por não ter sentado à mesa no tempo certo
e provado do amargo desse café e virado a mesa
(como se pudéssemos nós só por não adoçarmos o café virarmos a mesa)
Saber é sempre um salto e já faz uns anos que estamos caindo
mas prefiro pensar que em qualquer tempo em que nos conhecêssemos
inventaríamos levezas como inventamos agora
apesar da preparação pro dia de ponderação sombria
de pesos e medidas
e perdas e mais perdas.
Eu gostava de matemática no colégio
quando estudava as somas
não sei contar perdas porque é como contar nadas
e ninguém tinha dito como o nada se avoluma
talvez a professora de literatura
mas prestávamos mais atenção na gramática
para brincar com as vírgulas das orações
o que também é um jeito de rezar nesses dias tão descrentes.
Ao menos dançamos na cozinha de manhã
como se o dia não fosse pisar no nosso pé
como se não fosse tão incongruente ser um pouco feliz
mas talvez seja mais incongruente não dançar na cozinha de manhã
quando cada vez mais o que nos resta é dançar na cozinha
e abraçar como quem empresta
uma armadura a cada despedida. 

Recado ao poeta

Um dia eu conheci um poeta que me disse que muito amava as mulheres
Eu já ia dizer "muito obrigada" quando ele fez "psiu psiu, calada"
Eu não terminei de dizer o quanto eu amo a voz das mulheres
"Ô seu poeta, é piada" eu pensava. Mas não, não fala não.
Já te contei toda minha admiração pela doce essência das mulheres.
Eu já revoltada falei "vou embora, esse cara não entendeu nada" quando ele acusa.
"Ó mulher ingrata, eu aqui te louvando e você não quer ser minha musa?"
Bom, vou tentar desenhar para ver se dessa vez vai, ô seu poeta.
Primeiro: não é elogioso isso de admiração quando quer dizer "fica quieta".
Como se você tivesse tinta e pincel e eu, bom, eu fosse a tela.
Ou você escuta o que eu digo ou esse teu encanto não tem nada a ver comigo.
Segundo: não tenho menor obrigação com teus devaneios de paixão.
Não tô confusa por não querer ser sua musa
Nem tenho culpa se eu tava feliz olhando pro nada e você quis achar que era pra você e apaixonada
Deve ser difícil entender, mas a minha existência não é sobre você.
No mais, eu não tô de brincadeira,
não vim ao mundo ser só a companheira
de alguém que é, esse sim, o artista,
Acorda, poeta, a minha voz é a minha conquista
Seu verso sobre mim não me acessa
Lê meus poemas e aí a gente conversa.
Tentei dar esse recado rimado para ver se fica bem entendido
Não sou sua musa, não sou sua flor e não quero ser seu bem
Porque A poeta sou eu, também.
E, amigo, minha arte vai muito além do seu umbigo. 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Sobre as bruxas que queimamos e as que criamos – Butler na festinha e a necessidade de conversar

Sábado à tarde, festa de criança, entre um salgadinho e uma bola quase acertando o bolo:

- Vamos falar sobre Judith Butler?

Não, não era a chegada enfim das temidas tropas da “Ideologia de Gênero” que em seus unicórnios fosforescentes acabariam com a infância e com todos os heterossexuais do mundo. Tampouco era uma invasão de fanáticos queimando bruxas e confiscando os presentes não normativos da criança (ainda). Éramos só eu e a sogra da minha amiga papeando.



Ela tinha assinado a petição contra a Butler muito assustada por tudo que andava recebendo pelo Whatsapp e ouvindo de seus colegas de trabalho. Abolição dos gêneros. Não é mais permitido ser homem. Não é mais permitido ser mulher. Crianças sendo sexualizadas cedo. Uma grande dança de pênis e vaginas por todo lado. Era claro que não era esse mundo que ela queria. E se a tal da Butler tinha criado a ideologia de gênero e vinha defender sua agenda pedagógica, era óbvio que tínhamos que resguardar a educação nacional desse tipo de intromissão.

Se você conhece algo sobre a obra da Butler ou sobre as propostas de discussão de gênero nas escolas e leu o texto até agora, está provavelmente rindo e dizendo “esse pessoal não sabe mesmo de nada”. Entendo o sentimento, volta e meia partilho dele, mas também me preocupo com ele. Porque ele estereotipa o “outro lado”. Plasma como massa homogênea quem tem, efetivamente, uma agenda política contra direitos fundamentais e quem só está mal informado. Ou bem informado por quem tem um projeto político de ódio e está trabalhando muito por ele. Mas, sobretudo, quase que impossibilita o diálogo.

Não foi essa a tônica da nossa tarde. Conversamos longamente. Sobre como quem criou o termo “ideologia de gênero” não foi ninguém que é a favor de discutir gênero, mas quem é contra (- Faz sentido, porque seria mesmo um nome horrível pra alguém dar para algo que defende, Mariana). Sobre como Butler não é pedagoga, não tem um projeto para a educação brasileira e sequer estava vindo falar sobre essas discussões. Sobre a obra dela, aliás, desde “Problema de gênero” até as atuais discussões sobre precariedade. Ela achou muito bonitas e importantes algumas apropriações da Butler de Hannah Arendt e a nossa impossibilidade de escolher com quem dividimos o mundo. Achou, inclusive, que fazia sentido com sua crença religiosa. Conversamos também sobre discutir gênero nas escolas. Sobre como as crianças já são muito sexualizadas. Sobre como são impostos padrões desde cedo que podem ser muito violentos. Que possibilitar que não se imponham os padrões desde tão cedo não é impor outros, mas abrir espaço para a criança ser somente criança. Sobre a importância disso para a luta contra a violência contra a mulher, luta antihomofóbica, e também para sermos humanos mais interessantes.

Salvo uma ou outra coisa, concordávamos na maior parte dos pontos. Os que não concordávamos, víamos vários caminhos que comportavam as duas visões. Porque eram diferentes, mas não totalmente antagônicas. A conversa ficou por aí. Não sei exatamente se vai fazer diferença frente à enxurrada de correntes no telefone e discurso de ódio pululante aqui e ali. Mas me fez pensar.

Entre quem tem um projeto efetivo de cercear direitos fundamentais e impossibilitar mesmo a discussão teórica de temas progressistas e quem recebe, por exemplo, a campanha anti-gênero passivamente, há uma vasta paleta de opiniões e sentimentos. Existe uma diferença fundamental entre quem criou o tal do abaixo assinado, quem produz o discurso e quem o recebe, atônito.

Ouvindo o que minha interlocutora entendia por ideologia de gênero, sinceramente, não me deu exatamente vontade de viver naquele mundo tampouco. E se ela não tinha igual acesso ao que eu entendia por educação que discute gênero, bom, tem também um pouco de responsabilidade minha. Responsabilidade “nossa”. Quando a gente – é difícil definir esse “a gente”, mas existe aqui um “a gente” – diz que nem vale a pena discutir, faz um meme e fim de papo, estamos nos retirando do diálogo. Pior, não estamos produzindo contrainformação acessível.

Dizemos “leiam os livros da Butler antes de falar mal dela” – claro, porque é tão fácil ler essas obras densas filosoficamente quanto ler a corrente do grupo da família - “leiam os artigos sobre ela” - nada como a linguagem acadêmica, tão disponível para todo mundo como um vídeo no youtube, né mesmo?! - respondemos ironicamente desqualificando imediatamente o outro – ah, esse etéreo outro que permite o nós – sem a menor possibilidade de o ouvir. Ele que ouça e entenda. E chamamos isso diálogo.

Não estou dizendo que a culpa do discurso de ódio é de quem o combate. Nem que é fácil ter esse tipo de conversa. Passa tanto por paciência quanto por reavaliar coisas no que a gente fala e pensa. É sempre mais difícil quando envolve afetos, revisita os preconceitos familiares. Revisita os nossos próprios. Mas é preciso. Não porque somos pessoas legais que vamos “ensinar” algo a alguém. Mas porque o projeto de ódio está dando muito certo. E criar um espantalho que não vê as nuances só o ajuda. É criar do outro lado a bruxa a ser queimada em praça pública.


E bom, como a “bruxa” que queimaram hoje tem repetido sem cessar, não podemos escolher com quem dividir o mundo enquanto ele está aí posto. É melhor fazer isso conversando. Me passa um brigadeiro? 

sábado, 30 de abril de 2016

Chá de mim

Ontem fiz um chá antes de dormir – como o Rio me parece menos absurdo quando posso tomar um chá sem maiores derretimentos. Lia Kundera enquanto mergulhava distraidamente, o sachê na água quase fervente - como a vida me parece menos absurda quando posso estar e não estar dentro de mim.
Como que em um desenho animado infantil, entrou pelos meus pensamentos um som melodicamente imprevisto, tomando o espaço das palavras que ali andavam. Era um farfalhar tão suave, quase não audível, como que vindo de lonjuras e meio perdido por caminhos. Mas também, no quase silêncio do prédio adormecido, era palpavelmente próximo, quase tangível. Fechei os olhos para melhor saboreá-lo. Embora não entendesse ainda de onde vinha, sentia naquele leve encontrar de um não-sei-o-quê com outra-coisa uma fricção entre o que eu sentia e o que entendia. O mundo que me chegava e aquele que eu explicava. As tantas coisas incompreendidas e minha pequena gama de aceitações. Roçavam-se, tênue e bruscamente, a vida que eu acreditava viver e o punhado de fatos que outros chamariam de meu cotidiano. Mal chegava a ser um som, provavelmente era um ruído, não seria captado por microfones, se os houvesse, não seria reproduzível nem por uma orquestra de pulgas. No entanto, confortava-me, não como um entendimento – esses raramente confortam – mas como um afago. A ideia vaga que o esbarrar infindo entre os universos que invento e transito é também uma valsa suave.
Enfim, procurei em volta a origem das minhas explicações desexplicadas. Busquei em volta uma mariposa que batesse largamente asas ou uma fresta de vento que enganasse o vidro. Mas não, era meu próprio punho, arrastando o sachê nas paredes da xícara cada vez que o retirava e devolvia à água - já agora morna, que gerava o quase imperceptível e tão estrondoso som. Mirei minha mão descrente, como se fosse a mão de mais alguém que tivesse se introduzido, sorrateira, na madrugada. Ela continuava sem movimento contínuo como se me sorrisse (será que mãos sorriem?)

Seja como for, sorri eu, vagamente descobrindo como minhas mais imprevistas epifanias estão sempre no inalcançável alcance das minhas próprias mãos. 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Definição

Poesia: quando pressinto que sinto de forma assim perigosa
já assinto que me escape a prosa. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A poda no jardim de palavras

Meu primeiro plano para o ano é desinventar em mim algumas palavras. Palavras que, pelo peso ou repetição, já andam a fatigar meu linguajar rotineiro e desandar minha pontuação. Mais: palavras meio mesquinhas, assim, erva-daninhas, que em tudo se imiscuem e terminam por furtar os dedicados cuidados que oferto às sementes de metáfora e metalinguagem da plantação.
Culpa, por exemplo. Culpa é uma palavra cansativa. Culpa é uma palavra-erva-daninha. Mal a gente se dá conta, já está lá, plantada no meio das mais incongruentes sentenças. Normalmente, vem com seu prefixo a tiracolo, como que para camuflar dos nossos olhares jardineiros seu real significado. Mas não me engana mais. Dizer “desculpa” é dar raiz para a culpa se criar onde não foi chamada. No meio da frase de despedida e mesmo na saudação de chegada. Entre as frases ditas e como única expressão das caladas. Pelo passo atrás e pelo passo em frente. Já pedi tanta desculpa até por pedir desculpa, que muito me custa arrancar suas elaboradas raízes. Como expressão cotidiana, ando preferindo o “sinto muito”. Porque a grande verdade é essa: eu sinto tanto, eu sinto muito. Eu sinto as coisas que fiz e causaram dores. Em minhas terras ou nos arredores. Eu sinto por tudo que fiz e depois queria ver desfeito. Tudo isso me afeta e espeta, e, nesse sentir intenso e contínuo, vou jogando luz – e aqui e acolá regando-lágrima – no jardim.
Outra palavra que planejo desenraizar dos meus canteiros é “ainda”. Ainda não aconteceu? Ainda está aqui? “Ainda” dá uma impressão de descompasso com nosso próprio tempo, como se pudéssemos andar atrasados nos ponteiros de nossos próprios relógios. Como se o universo não fosse despreocupadamente pontual em todos os seus giros. Ainda também empresta uma perigosa sensação de inevitabilidade. “Ainda não aconteceu” é a certeza velada que atrasadamente acontece. Que o caminho sob os pés espantosamente nos independe. Os “aindas” de meu canteiro aceleram o ciclo dos duradouros “em tempo”, inquietam o amadurecimento dos meus “durantes” e tapam a floração imprevista e bela dos “de repentes”.
Por fim, palavra outra que atrapalha a maturação da minha botânica vocabular é “pronto”. Ah, estar pronto, esse estágio inatingível da matéria que nos empresta justificativa para todo e qualquer adiamento. O texto jamais terminado – não está pronto. O romance jamais começado – não estou pronta. Como se houvesse ideias prontas, e elas ficassem de prontidão a nosso chamado. Como se tudo não fosse ao mesmo tempo completo e em complexo e infindo processo de ir sendo. A semente é ao mesmo tempo pronta e projeto. Também a folha. Também o fruto. Por isso, podo de minha imagem essa minhoca das completudes, que teimava em esconder as flores-mudanças das minhas locuções.
Palavras daninhas devidamente identificadas, preparo-me para o longo tempo das capinas. Não pode ser diferente. Não confio em agrotóxicos. Nem em artificialidades. Olho-me no espelho e me escapa:

- Desculpa, ainda não estou pronta.

Rio ao me responder.

- Sinto muito, sinto tanto que de repente é tempo. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tecidos diários

para Leila, João e Thereza


Para a frágil tecitura do dia 
escolho o bordado tanto pela cor
quanto pela candura. 

É que ser flor, nessa ruidosa apatia,
é, sobretudo,
uma forma de luta. 

Roubo da renda a força tesa
de não se render ao ferro que assusta,
enquanto o cetim me ensina a leveza 
de moldar-se e ainda seguir em disputa. 
O caimento do brim, em sua maciez consistente
ajuda a ser firme e não perder a ternura, 
mas é sem a chita que eu não saberia 
o movimento amplo das flores em rebeldia. 

Trajar-me em cotidiana poesia 
é meu escudo-espada contra a rotina-espartilho, 
infeliz e armada. 
Por isso quando à noite me dispo
dos tecidos e das rimas em camada
deixo em molho de sonhos o vestido 
para o luar quarar minha onírica empreitada.

Rio, 02 de novembro de 2015