segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A poda no jardim de palavras

Meu primeiro plano para o ano é desinventar em mim algumas palavras. Palavras que, pelo peso ou repetição, já andam a fatigar meu linguajar rotineiro e desandar minha pontuação. Mais: palavras meio mesquinhas, assim, erva-daninhas, que em tudo se imiscuem e terminam por furtar os dedicados cuidados que oferto às sementes de metáfora e metalinguagem da plantação.
Culpa, por exemplo. Culpa é uma palavra cansativa. Culpa é uma palavra-erva-daninha. Mal a gente se dá conta, já está lá, plantada no meio das mais incongruentes sentenças. Normalmente, vem com seu prefixo a tiracolo, como que para camuflar dos nossos olhares jardineiros seu real significado. Mas não me engana mais. Dizer “desculpa” é dar raiz para a culpa se criar onde não foi chamada. No meio da frase de despedida e mesmo na saudação de chegada. Entre as frases ditas e como única expressão das caladas. Pelo passo atrás e pelo passo em frente. Já pedi tanta desculpa até por pedir desculpa, que muito me custa arrancar suas elaboradas raízes. Como expressão cotidiana, ando preferindo o “sinto muito”. Porque a grande verdade é essa: eu sinto tanto, eu sinto muito. Eu sinto as coisas que fiz e causaram dores. Em minhas terras ou nos arredores. Eu sinto por tudo que fiz e depois queria ver desfeito. Tudo isso me afeta e espeta, e, nesse sentir intenso e contínuo, vou jogando luz – e aqui e acolá regando-lágrima – no jardim.
Outra palavra que planejo desenraizar dos meus canteiros é “ainda”. Ainda não aconteceu? Ainda está aqui? “Ainda” dá uma impressão de descompasso com nosso próprio tempo, como se pudéssemos andar atrasados nos ponteiros de nossos próprios relógios. Como se o universo não fosse despreocupadamente pontual em todos os seus giros. Ainda também empresta uma perigosa sensação de inevitabilidade. “Ainda não aconteceu” é a certeza velada que atrasadamente acontece. Que o caminho sob os pés espantosamente nos independe. Os “aindas” de meu canteiro aceleram o ciclo dos duradouros “em tempo”, inquietam o amadurecimento dos meus “durantes” e tapam a floração imprevista e bela dos “de repentes”.
Por fim, palavra outra que atrapalha a maturação da minha botânica vocabular é “pronto”. Ah, estar pronto, esse estágio inatingível da matéria que nos empresta justificativa para todo e qualquer adiamento. O texto jamais terminado – não está pronto. O romance jamais começado – não estou pronta. Como se houvesse ideias prontas, e elas ficassem de prontidão a nosso chamado. Como se tudo não fosse ao mesmo tempo completo e em complexo e infindo processo de ir sendo. A semente é ao mesmo tempo pronta e projeto. Também a folha. Também o fruto. Por isso, podo de minha imagem essa minhoca das completudes, que teimava em esconder as flores-mudanças das minhas locuções.
Palavras daninhas devidamente identificadas, preparo-me para o longo tempo das capinas. Não pode ser diferente. Não confio em agrotóxicos. Nem em artificialidades. Olho-me no espelho e me escapa:

- Desculpa, ainda não estou pronta.

Rio ao me responder.

- Sinto muito, sinto tanto que de repente é tempo. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tecidos diários

para Leila, João e Thereza


Para a frágil tecitura do dia 
escolho o bordado tanto pela cor
quanto pela candura. 

É que ser flor, nessa ruidosa apatia,
é, sobretudo,
uma forma de luta. 

Roubo da renda a força tesa
de não se render ao ferro que assusta,
enquanto o cetim me ensina a leveza 
de moldar-se e ainda seguir em disputa. 
O caimento do brim, em sua maciez consistente
ajuda a ser firme e não perder a ternura, 
mas é sem a chita que eu não saberia 
o movimento amplo das flores em rebeldia. 

Trajar-me em cotidiana poesia 
é meu escudo-espada contra a rotina-espartilho, 
infeliz e armada. 
Por isso quando à noite me dispo
dos tecidos e das rimas em camada
deixo em molho de sonhos o vestido 
para o luar quarar minha onírica empreitada.

Rio, 02 de novembro de 2015

 

domingo, 18 de outubro de 2015

Primeirúltima página

Fim do conto. Ponto? Fecho o livro e pronto? Prateleira e citações sem contexto?

Nunca acreditei muito em últimas páginas, se as viro ao reverso nada mais são que as primeiras de outra narrativa. No entanto, há o que se acaba. O fim nos chega com o ineditismo próprio do que é repetido pela última vez. E um domingo chuvoso, propenso que é a melancolias prosaicas, parece-me ideal para finitudes poéticas.

O livro a ser guardado, com cara de fim de papo. Daquela pena, já sei, não escorrem outros universos.  Repousa em aquáticos desertos caribes. Os mergulhos conjuntos – profundos – resumem-se agora em uma prateleira repleta do mesmo nome: e só mundos viajados. Infinitos conhecidos deixam de ser infindos? A margem ampla só me sugere imensidões de reencontros. Tenho que voltar às mesmas águas para descobrir.


Fim do conto. Ponto? Não conto. 



infinitudes sentidas ap ler o último livro de García Marquez que ainda não tinha lido. 
ou seria o primeiro?

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O feminista misógino, o Bolsonaro e outros seres mitológicos (ou porque não aguento mais falar sobre homens no feminismo)

Há cerca de duas semanas conheci um novo e imprevisto ser para minha mitologia pessoal: o ~feminista~ misógino. Era um estudante de esquerda que reconhecia plenamente as opressões históricas contra a mulher – poxa, muito obrigada – e já tinha lido toda teoria que normalmente citada sobre o tema e também aquela muito além do que eu-reles-mortal possa sonhar que exista. Justamente, eu, reles mortal, deveria ler mais (isso eu sempre concordo, mas por outros motivos e em outros termos) porque “vocês, mulheres, não entenderam que o importante é... “ e o problema, de fato, é que “as mulheres não conseguem se articular para...”, além do mais, “as mulheres são incapazes de compreender que...” e... opa, peraí, o parágrafo não tinha começado falando de opressão?



Para além de compor a taxonomia sempre surpreendente da fauna e flora de gentes que encontro no mundo, propiciar-me uma tarde de discussão infrutífera e aumentar minha gastrite, o catalogar desse novo personagem fez-me pensar ainda mais na incansável (e cansativa) polêmica dos homens dentro do feminismo.
Cansativa, aliás, é pouco. Particularmente, ando me sentindo cercada. Tanto que relutei incrivelmente sobre escrever esse post – mais um no mar da internet – sobre o assunto!
Não tem uma conversa sobre feminismo que eu tenha tido nos últimos tempos que não tenha gastado muito (muito!) tempo discutindo justamente, veja só, homens.
 Da mesa de bar com as amigas aos grupos de whatsapp de coletivos de mulheres, das reuniões políticas às discussões acadêmicas, isso sem falar em todos os posts das principais páginas que acompanho. É como se mesmo para defendermos nosso protagonismo tivéssemos que abrir mão dele. Angustiante.
Por isso, mesmo relutante, resolvi escrever, aceitando o paradoxo de decidir falar sobre algo porque não aguento mais falar sobre isso. Pelo lançamento da campanha ElesporElas no Brasil – mais discussões. Pelo tal do feminista misógino. E também por causa do Bolsonaro. Do Bolsonaro? Sim, do Bolsonaro. Uma das outras notícias que vi compartilhada à exaustão essa semana foi a do Bolsonaro (filho) propondo emenda para retirada dos coletivos de mulheres e coletivos LGBTTs da Comissão Municipal da Mulher. Segundo o moço, assim ele estaria defendendo a “verdadeira mulher”. Pois é, gente, mais alguém querendo contar para a gente que existe e quem é a “verdadeira mulher”. Um homem. E o Bolsonaro.
Confesso que nunca tinha visto grande problema em dizer que um homem era feminista. Para mim era tão óbvio que o protagonismo dessa luta era, tinha que ser, só podia ser, das mulheres (cis, trans, negras, brancas, bi, hetero, homo) que nomear um homem como feminista só me dizia que ele era um homem que 1) reconhecia a dominação patriarcal e 2) ficaria atento para não a reproduzir 3) atuaria em todos os espaços em que é privilegiado para conscientizar seus pares e desconstruir seus privilégios.
Começou a me incomodar um pouco ano passado, com o discurso da Emma Watson, o famoso. Ainda intuitivamente, deu uma decepçãozinha de pensar que, poxa, minha personagem de infância estava na ONU para falar de feminismo e... ela estava indo lá falar sobre homens. E aí, de repente, mil pessoas que nunca tinham me ouvido quando eu falava de feminismo, amigas e amigos que nunca tinham dado a menor bola pra minhas angústias e minhas inquietações estavam falando sobre isso e... estavam falando sobre homens. A pulga ficou atrás da orelha. Coçando.
Mas se parasse por aí, ainda poderíamos, talvez, negociar.
Mas não para. Nunca para, né, gente.
Fui notando que vários homens em torno, legitimados pelo tal discurso, passavam de apoiadores das causas a críticos delas por “não terem o espaço deles” (?! acho que não entenderam a parte do usar seus espaços para desconstruir o machismo). E o “atuar nos seus espaços de privilégio” acaba virando desculpa para um certo “olha, não se preocupa se a luta pela representatividade política das mulheres não for vitoriosa por agora, tem uns homens feministas aqui, eles vão defendendo o direito de vocês até – ah, até algum dia”. Culmina no meu recém conhecido feminista misógino: “olha, já que você é burra e fraca, deixa que eu vou lá e acabo com essa cultura que acha que as mulheres são burras e fracas”


Se antes eu pensava na possibilidade do homem feminista tendo em mente meu amigo que – entendendo e estudando comigo questões de representatividade e protagonismo – sabe que não pode ir a um coletivo de mulheres e se cala quando eu discuto sobre machismo com um homem na presença dele, pois sabe que é importante que eu o faça (mas desconstrói “piadinhas” machistas na roda dos homens) percebi que o alcance político dessa categoria vai um pouco além. E é bem mais perigoso que eu pensava. As consequências estão aí, estão acontecendo, aqui e agora. Estamos gastando mais tempo falando de homens no feminismo do que das nossas pautas mais caras e importantes. Estamos debatendo internamente antes o lugar do homem no feminismo do que a – ainda – falta de representatividade das pautas trans (para ficar só no caso mais grave dessa carência). Estamos perdendo tempo, fôlego e energia em discussões entre mulheres sobre se os homens podem ou não ser feministas, enquanto ~cereja do bolo~ surge o Bolsonaro dizendo o que é uma “mulher de verdade” a ser defendida pela política pública da cidade do Rio de Janeiro.
Eu sei que não era no Bolsonaro que a Emma Watson estava pensando. Nem a ONU Mulheres. Nem ninguém em sã consciência. Espero que nem o próprio Bolsonaro se pense incluído nesse discurso. Mas, se a gente diz que os homens podem assumir frente de pautas feministas, e o Bolsonaro resolve que vai se arvorar como defensor dos direitos da “mulher de verdade”, como a gente vai explicar para ele que não é assim que funciona? Como a gente vai explicar que não era nele que a gente estava pensando e que isso aí de “mulher de verdade” ele cante no samba, se não puder evitar, e não acredite que existe - de jeito nenhum?

O feminismo atual, quando colocado assim no singular, já tem problemas suficientes de racismos, homofobias, transfobias internos para ainda correr esse risco . Os feminismos atuais, no plural, única forma como os acredito, já tem pautas e desafios suficientes para perder tanta energia em debates internos sobre, justamente, protagonismo masculino.

Isso não é ser contra homens. Não é segregacionista ou separatista. 

É só lembrar que, gente, nos feminismos, não era para a gente estar preocupado com as mulheres?








(Mesmo porque, como sempre converso com meu amigo que – mesmo que eu não o chame mais de feminista – segue sensibilizado para as questões de gênero, atuante em seus espaços de privilégio e ótimo interlocutor pra todas essas confusões da vida: um homem que realmente entendeu algo sobre as opressões e os feminismos, ah, não precisa ser chamado de feminista para fazer nada. Não reivindica um papel, porque sabe que tem muitos que nos são negados. Ele não vai ficar nem tentando explicar às mulheres –tolinhas -  como se faz. Vai fazer tudo que puder. Nos espaços dele. Convenhamos, espaço não é o que lhe falta.) 

sábado, 13 de junho de 2015

Cadê a Nélida que devia estar aqui? - nossas autoras em nossas estantes

Ontem fui à livraria trocar um presente que ganhei de aniversário.
Aproveitava a tarde agradável depois de uma semana particularmente corrida.

É que a ida a livrarias, esse mero cruzar de suas soleiras e o flanar por entre as estantes costuma ser, para mim, um delicioso ritual a ser degustado. Como chegar em uma festa e encontrar vários rostos conhecidos e queridos. Alguns desconhecidos, mas de aparência sumamente interessante. Daí abraço uns, aceno a outros, pego-me de conversa com um que só conhecia de vista, mas que me encanta no espaço de algumas páginas.
Foi, então, na melhor disposição literária e de espírito que entrei na loja. Pensava, depois de meus flertes habituais e- quem sabe – uma nova paixão livresca, trocar o presente (que era um livro que já tinha) pelo “Livro das Horas” da Nélida Piñon. Já havia lido trechos, gosto demais dela, queria tê-la mais perto de mim, na estante cotidiana. Mas não o encontrei por entre os títulos de literatura brasileira. A bem dizer, não encontrei nenhum livro da Nélida. Estranhei. É uma autora conhecida, com algumas-muitas publicações. A livraria era grande, repleta de clássicos e novidades literárias. Resolvi perguntar. O simpático vendedor me responde.
- Temos, claro. Está aqui embaixo.
Eu realmente não tinha olhado nas prateleiras abaixo da bancada, ao nível dos pés, pois acreditava que, normalmente, elas só tinham coleções inteiras. Abaixei-me e achei Nélida. Mas, curiosa por natureza e ainda mais quando se tratam de livros, fui passear os olhos pelas lombadas vizinhas. Estavam lá velhas conhecidas: Ana Maria Machado, Lya Luft, Ligia Fagundes Telles, Zélia Gattai. Não eram coleções, eram livros esparsos de cada uma dessas autoras. Sim, só mulheres.
Levantei-me novamente, ainda descrente da observação, e encarei a estante alta e imponente, em ordem alfabética de sobrenomes. Havia autoras. A inescapável Clarice. Sylvia Plath, supreendentemente. Não muitas outras. Estavam lá, claro, todos os Guimarães e Gracilianos, Rubens Bragas e Fonsecas, Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva, Caio Fernando Abreu e todos os autores famosos brasileiros que me ocorreram procurar. AutorES. As autoras pareciam vazios inexplicáveis na estante abarrotada. Depois do Paiva, não viria uma Piñon?
Não, péra, para de reclamar, leitora desatenta. Elas estavam ali. Ali embaixo. Porque, afinal, provavelmente seria pedir muito pedir que as tivéssemos à altura dos olhos.
Percorri superficialmente outras estantes, com aquela angústia indizível de quem enfim vê. Na literatura estrangeira, igualmente, uma diferença gritante entre homens e mulheres. Em poesia idem. Onde estava Elisa Lucinda? Nenhuma Adélia Prado? Ao menos um da Viviane Mosé e um da Thereza Cristina Roque da Motta (poeta e querida amiga) para salvarem a situação. Milhares de Nerudas e nenhum Gabriela Mistral? Será que o Nobel de um homem vale mais que de uma mulher? O da mulher vem tipo com uma nota de rodapé – “Isso na verdade não quer dizer que a obra dela deva ser lida e divulgada, foi só uma piadinha nossa aqui na Suécia”?
Porque, para quem não sabe, Gabriela Mistral, poeta chilena que viveu na primeira metade do século XX (inclusive um tempo aqui em nossa terra brasilis) foi a primeira a ganhar o Nobel da Literatura na América Latina. Sim, quando digo primeira, não estou dizendo primeira mulher, estou dizendo primeira pessoa (só essa pequena sentença já dava uma hora de conversas regadas de Beuvoir), antes do seu conterrâneo Pablo, bem antes do colombiano García Marquez. Mas nós devemos achar que isso foi uma distraçãozinha do povo lá de Estolcomo, já que não a traduzimos, não a citamos, não a lembramos. (mas sem o Neruda, ó, céus, como falar de amor sem Neruda?)
Não, não quero falar mal de Neruda nem de seus poemas, pelos quais igualmente suspiro. Menos ainda de García Marquez, que todos sabem ser meu encantador de realidades favorito. Tampouco quero desmerecer a constância em toda e qualquer estante de Machados, Josés, Jorges e afins. Só que eles não podem estar lá sozinhos.  As mulheres escritoras não podem estar embaixo. Se Zélia e Jorge se escolheram mutuamente como companheiros de vida e letras, agora os separamos por cima e baixo, visível e invisível na prateleira?
Porque isso, travestida de uma vaga ideia (um cado obtusa) de excelência literária, tem tudo a ver com a desconsideração da mulher como ser pensante, como alguém que tem algo interessante a dizer. As mulheres são objetos dos olhares, são personagens das narrativas, são musas inspiradoras das odes.  Devem, por isso, deitar-se confortavelmente em um divã, fazer pose, e esperar que se diga tudo sobre elas.
Mas não são dignas de pegar a caneta. De terem suas vozes ouvidas e consideradas. Se falam, até é tolerado. Mas nunca o mesmo espaço. Nunca a mesma divulgação. Nunca, nem mesmo, a mesma leitura.
Se falam, diz-se “falam como mulheres”. Como se isso fosse evidente. Como se isso fosse um desvio da fala “neutra” do homem.
Lembro vivamente do dia que ouvi Isabel Allende na Flip. Uma das palestras mais impactantes e transformadoras que já vivi em minha vida. Questionada sobre as críticas que sofria por ser “muito romântica”, Isabel riu e perguntou.
- Você já leu “O Amor nos tempos do cólera”? Então me diz porque ninguém critica o Gabriel por isso? Porque não consigo pensar em um romance mais água com açúcar. Ah, sim, porque ele é homem. Ele pode escrever o que quiser. O problema é que a mulher vai ser criticada pelo que quer que ela escreva.
O que me faz pensar em um poema do século XVIII que encontrei esses dias, que fala justamente sobre a dificuldade enfrentada pela mulher que quer escrever. Somos tão “igualitários” e tão “evoluídos” e “estamos cansados das feministas vendo problema em tudo”. Mas o poema segue atual.

Eu, de minha parte, seguirei reclamando. Quero chegar à livraria e, na festa dos livros conhecidos e ainda a serem lidos, ver elas, minhas autoras. Quero poder esbarrar com elas bem no meio da estante, ou – ainda – na bancada, em franco destaque. Quero ouvir o que elas têm a me dizer sem ter que ir procurá-las nos recantos. Quero-as na altura dos meus olhos. Quero poder ver-me nelas e que me vejam também elas.
Por isso, cada vez mais: ler mulheres, escrever sobre mulheres, declamar mulheres.
Por uma estante para também chamar de nossa.


Ps: Em tempo, reclamei com funcionários da livraria que, um pouco sem graça, explicaram algo sobre o rodízio de livros que não fez exatamente sentido, mas disseram que ficariam atentos. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

As mulheres das estatísticas (também) somos nós: aprendendo a dizer assédio

Cheguei revoltada ao Centro da cidade para encontrar um amigo. No metrô, a velha história do homem-ao-lado-no-assento-que-perdeu-alguma-coisa-muito-importante-no-bolso. Essas grifes de hoje em dia que fazem bolsos maiores que mochilões de viagem, coitados dos moços, né, gente. Meu amigo não entendeu. Expliquei que podia servir para passar a mão em alguma mulher perto, que eu já tinha tido alguns problemas com isso, ou também uma forma "discreta" de masturbar-se em público. 
- Espera! Você já teve problemas com isso? 
- Ô, nem te conto. Inclusive teve uma vez que... 

- Não, mas então você já foi assediada no ônibus? Que ônibus? Que metrô?
Encarei ele, meio incrédula. Ele sabe que pego metrô e ônibus basicamente todos os dias da minha vida. E que são nesses metrô e ônibus que temos relatos e estatísticas e mesmo políticas públicas para coibir o assédio contra mulheres. Convenhamos, não é uma matemática difícil. 
 - Os que pego todo dia?
- Sério, cara? Tipo, então, para vir aqui para o centro? É o mesmo que minha mãe, minha namorada pegam. Será que...? Não quero nem pensar nisso. 
Não aguentei e perguntei:
- Você conhece as estatísticas. Com que mulheres você achou que isso acontecesse?
- Não sei. Com outras. 
Ah, claro. As outras, sem rosto e sem nome. As outras, que necessariamente não conhecemos. Quão úteis nos são para podermos fingir que aquela violência não nos atinge. As outras, as que compõe estatísticas, que moram longe da gente, de quem podemos nos compadecer sem grandes incômodos. 
Que outras distantes mulheres (teve aquelas em São Paulo, né?) sofram assédio em transportes públicos, é revoltante e errado, mas posso dormir com isso. Mas que "minha mãe", "minha namorada" e "minha amiga" encarem isso diariamente no caminho do estágio, trabalho ou faculdade, não, não dá.
Mas não escrevo isso (só) para falar da cegueira do meu amigo homem-cis-branco-hétero que nem pega lá muito metrô, essa até chamei bastante atenção pessoalmente. 
Fiquei pensando depois porque eu, sua mãe, sua namorada, nunca lhe tínhamos falado de nada disso. Por que não falamos do assédio cotidiano que vivemos? 
Porque nunca aprendemos a chamar de assédio. 
Assédio é algo grave que beira o estupro, provavelmente deve incluir umas ameaças explícitas e órgãos genitais pra fora. Essa mão apoiada na nossa perna, pura distração. Esse tombo acidental com a mão di-re-ta-men-te no nosso seio, mas ora, como eu ia saber onde ia cair? Esse segurar na cintura como se a gente fosse parte da estrutura física do transporte, é que eu ia desequilibrar, moça. Claro. 
Em qualquer roda de mulheres que você sente e puxe o tema com um "Meninas, olha o que acabou de me acontecer no ônibus." vão pipocar histórias de olhares fixados em peitos por mais estações que as esquecidas de construir pelo governo estatal, gestos obscenos, cantadas pra lá de inconvenientes, encoxadas, homens que sem-querer-dormindo deitam no colo e começam a se refestelar por ali, carinhos no cabelo, cheiradas, mãos por baixo da saia, a lista é desesperadoramente infinda. 
Mas se na mesma roda se pergunta "Quem já sofreu assédio em um transporte público?" se uma disser que sim já é quase vitória. 
Porque aprender a chamar de assédio é romper- um pouco- o ciclo da violência. É romper a dominação que te faz acreditar que, de alguma forma bizarra e inexplicável, você mereceu. Que aquela saia, afinal, era curta. Ou era tarde. Ou seu cabelo podia estar preso. Ou você podia estar de burca e ser uma faquir que não ocupa mais espaço.
E chamar de assédio é poder falar sobre. Mas também, é dever falar sobre. É saber-se parte das estatísticas. É assumir-se parte das estatísticas e começar a lutar contra elas. 
Lembro a primeira vez que me dei conta que sofria um assédio. 

Estava de saia no metrô. Nem estava muito cheio. Estava em pé, lendo. Um homem parou ao meu lado e colocou sua mochila no chão, rente à minha perna. Um minuto depois, mudou de ideia e pegou a mochila, para isso tendo que encostar um pouco mais que o necessário na minha coxa. Mas não achei que era um problema. Segui lendo. Ele largou a mochila de novo. E repetiu o ritual de erguê-la com apoio da minha perna. Pensei vagamente que eu devia ter vindo com uma saia maior. Pela terceira vez ele colocou a mochila no chão. Pela terceira vez subiu passando a mão na minha coxa. Ainda assim não achava que era assédio, só achava que não queria estar mais perto daquele homem. Afastei-me e prossegui a leitura. Não vi ele se aproximar e colocar novamente a mochila no chão, só senti ele erguê-la demoradamente, agora levantando também minha saia. Entendi, assustada, dei um pulo para o lado e o encarei, lívida. Ele me disse, cínico, "minha mochila tinha caído". A porta abriu e eu saltei sem olhar qual era a estação. Eu não tinha conseguido dizer nenhuma palavra. Ainda da plataforma, olhando o vagão, vi ele se aproximar de outra mulher. 
Não sei quanto tempo fiquei parada naquela estação, odiando minha saia, odiando meu silêncio, em suma, odiando-me. Saltei do metrô e fiz o resto do caminho a pé. Bendita seja toda caminhada que me organiza os pensamentos. Não era culpa minha, nem da minha saia, a culpa era dele e aquilo era um assédio. E eu não mais me calaria. 
Desde então, aprendi a chamar de assédio o que é assédio. Mesmo que exista uma gradação da gravidade, são todos parte da mesma lógica de disponibilidade do corpo feminino, da mulher como objeto público acessível para quem quiser esticar a mão. Chamar de assédio o que é assédio é dizer para a mulher: você não precisa passar por isso. E para o homem: atenção, você pode estar fazendo alguma mulher passar por isso. (porque, sem hipocrisia, se 3 em cada 4 jovens brasileiras já foram assediadas no transporte público, e não acredito em uma pequena seita com superpoderes que se multiplica nos metrôs brasileiros, os homens que fazem isso também estão muito perto da gente). Chamar de assédio o que é assédio é fazer existir para poder conscientizar e lutar contra.
Assédio é o que acontece com as “outras mulheres”. Mas em uma sociedade tão marcada por diferenciações de gênero, de alguma forma, somos todas outras, enquanto mulheres.
Porque mulheres.